episódios e curiosidades das eleições 2008

Conforme costume antigo, costumo visitar velhos amigos em dias de eleição. Perambulo pela cidade à procura do “espírito” da eleição, pois, sim, cada uma tem o seu, das barbadas aos prédios mais renhidos.

Desde cedo, notei certa tendência de defecção nos redutos “progressistas”. Havia nos fundos do Tucuruvi um jovem negro, em trajes de grife surfe, distribuindo discretamente santinhos de Kassab. Vejam bem, ele não fazia campanha para um candidato à vereança, mas para o majoritário. Só.

O rapaz é estudante do terceiro ano do segundo grau, comprou recentemente seu primeiro computador, a crédito. O pai é vigia (conseguiu carteira assinada há três anos) e a mãe é diarista. Ele atualmente não trabalha regularmente. Nos fins de semana, atua como assistente de som em bailes na região dos Jardins. É o típico emergente da nova classe C.

João (vamos chamá-lo assim) afirma que o governo Lula “acostuma mal os vagabundos” com o Bolsa Família. A mãe sempre votou em Marta, mas o pai costuma odiar qualquer petista. “Meu velho não quer saber do casamento gay em São Paulo, nem eu”, sentencia, alisando a sobrancelha.

– Vai votar em quem?

– Dessa vez é no Kassab – revela a moça, que graças ao crescimento da renda familiar (ela e dois irmãos conseguiram emprego nos últimos três anos) pôde matricular-se numa faculdade privada.

– Por que nele?- É o menos pior…

– E a Marta?

  Ela fez o apagão aéreo e mandou o povo gozar depois do estupro. Tem como uma pessoa passar uma hora, uma hora e meia, esperando o avião?

– Como?

– O povo ficar horas esperando o avião…

– É chato mesmo – respondo. – Mas você já viajou de avião? – indago.

– Nunca. O mais longe que fui na vida foi para Mongaguá (litoral sul).

– Entendo. E o trânsito em São Paulo?

– Péssimo. Entre metrô e ônibus, fico umas 4 horas e meia no transporte, todo dia. Não anda.

– E de quem é a culpa?

– Sei lá… Tem muito carro na rua. Precisava fazer alguma coisa.

– E você não acha que o Kassab tem alguma responsabilidade nisso?

– (silêncio)… Não sei. Não parei para pensar.

– Isso afeta sua vida, não?

Quase cinco da tarde, na região dos Jardins. O filho de um amigo chega da votação com três colegas. O rapaz é o único que votou em Marta Suplicy. Dos colegas, dois preferiram Kassab. O outro votou em Geraldo Alckmin.

– Na verdade, eu e toda minha família somos malufistas, mas o Kassab é o único que pode ganhar dessa “vaca” da Martaxa – diz Paulo (vamos chamá-lo assim), exaltado.

– Sim, as taxas devem ter prejudicado muito sua família… – pondero.

– Meu pai fez a empresa dele sem ajuda de ninguém. A gente ta cansado de pagar os impostos que o PT inventou. Cada dia tem um imposto novo.

– Que imposto novo?- Vários.

– Mas quais?- Vários. Tudo para sustentar vagabundo nordestino. E olha que eu não sou nem um pouco racista. Tenho até amigo japonês, negro, de todo tipo. Mas com esse negócio de bolsa, o cara se acostuma a não trabalhar e fica tomando cachaça o dia inteiro. É preciso ensinar o cidadão a pescar, e não dar o peixe.

– Mas o Bolsa Família está integrado a vários projetos de promoção e inclusão. Tem a contrapartida educativa… – tento argumentar, quando sou interrompido.

– Tem nada. Isso aí é coisa da mídia que o Lula comprou.

– Mas a mídia costuma ser contra o presidente – afirmo.

– Mas e os dados do Ipea, do IBGE?

– Eu estudo Administração. Isso é tudo mentira.

– Quer dizer que o país não melhorou em nada?

– Esse semi-analfabeto deu sorte. Aproveitou o Plano Real e o crescimento da China… Agora, quero ver. Estou só esperando para ver o que vai acontecer. E vou dar risada.

– Mas o país não estava muito bem em 2002 – intervenho.

– O PT é o “partidão”, não é?

– Não que eu saiba – respondo.

– É sim… Eu abri os olhos de muito colega sobre esse comunismo disfarçado aí… Nessa eleição, eu convenci muito petista a votar no Kassab.

– Quem?- O nosso motorista, o jardineiro que vai lá em casa…

Já são 18h20… Alguém grita do interior da casa: “o Kassab está ganhando”. Os três jovens urram de prazer. Está se iniciando a longa noite até o segundo turno.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o primeiro turno das eleições municipais custou aproximadamente R$ 462 milhões, o que representa mais de 88% do total de recursos disponíveis para o pleito (R$ 523 milhões). O resultado da apuração do primeiro turno das eleições municipais produziu uma série de histórias curiosas em vários estados.

No município mineiro de Dom Cavati, a eleição terminou empatada. Segundo a legislação eleitoral, em caso de empate o candidato mais velho é declarado vencedor. Assim, Jair Vieira (DEM) é o novo prefeito da cidade, após ter empatado nas urnas com Pedro Euzébio Sobrinho, o Pedrinho (PT), com 1.919 votos cada um. 

Em outros cinco municípios, a decisão da eleição para prefeito foi decidida por um voto. O fato curioso aconteceu nas cidades de São Martinho (RS), Saldanha Marinho (RS), Jussara (PR), Nazaré (TO) e Arantina (MG), segundo o TSE.

Na cidade de Benedito Leite, (MA), as eleições foram canceladas pela Justiça Eleitoral do estado depois que eleitores descontentes atearam fogo em um galpão onde estavam guardadas as 16 urnas do local.

E em Propriá (SE), o candidato eleito, Paulo Britto (PT), é irmão do presidente do TSE, Carlos Ayres Britto, que fez questão de salientar: “Eu não ajudei em absolutamente nada”.


Na disputa entre os partidos, o PMDB lidera o número de prefeituras conquistadas. O partido já elegeu 1.200 prefeitos no país. E o PT disputará o maior número de segundos turnos.

 

Vereadores mais votados

O candidato Gabriel Chalita (PSDB) foi o vereador mais votado em São Paulo com 102.048 votos válidos. No Rio, Lucinha (PSDB) foi a mais votada com 68.799 votos. Em Porto Alegre, Maurício Dziedricki (PTB) foi o candidato a vereador com maior número de votos: 15.454 .

 

Em Belo Horizonte, o mais votado foi o Professor Elias Murad (PSDB) com 15.473 votos. Em Curitiba, Roberto Aciolli (PV) foi o primeiro com 17.377 votos.

 

Campanha com o número errado

As eleições para vereador também renderam curiosidades. Em Pejuçara (RS), a candidata Cinara Salles Mioso, fez campanha eleitoral com o número errado. Ao invés de 13.612, ela fez a campanha com o número 13.162. Resultado: teve apenas seis votos válidos. 

 

 

Flavia da Silva Almeida/Vc no G1

Transformista Leo Kret do Brasil foi eleito vereador em Salvador (Foto: Genilson Coutinho/VC no G1)

João Buzo também errou o número nos seus ‘santinhos’. Mesmo com o infortúnio, ele se elegeu com 144 votos para uma das nove cadeiras da Câmara Municipal de Gabriel Monteiro (SP).


Em Salvador, a Câmara Municipal terá uma de suas cadeiras ocupadas pelo transformista Leo Kret do Brasil, que foi o quarto mais bem votado das eleições para vereador.

 

Bin Laden e Zidane não são eleitos

Os candidatos que se inscreveram com os nomes de Bin Laden e Zidane não conseguiram se eleger. Assim como a candidata mais velha do país.

 

Boca-de-urna vira castigo em quartel

No domingo (5), 208 candidatos foram presos, a maioria por fazer boca-de-urna. De acordo com a Justiça Eleitoral, foram registradas 4.656 ocorrências e 1.541 prisões. Um menor de idade foi flagrado por um mesário tentando votar com o título de eleitor de outra pessoa, numa seção do bairro de Jordanésia, na cidade de Cajamar, na Grande São Paulo. E em São Leopoldo (RS), dez pessoas foram flagradas fazendo boca-de-urna e pagaram suas penas limpando o quartel da Brigada Militar.

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